Ao meu amigo António

Conheci o meu amigo António, há muitos anos, num acampamento de Escoteiros, na Terra Chã, era eu um projeto de Lobito, aí com seis ou sete anitos, que nunca singrou. Quatro anos mais velho, o António – e o Ricardo Gregório, que o acompanhava -, acharam-me pequeno demais para aquelas andanças, e puseram-me a mão. Acho que lhes cheguei a agradecer.

Para lá de ter fugido desse acampamento, curiosamente minutos antes de os meus pais irem visitar o espaço – o que, de alguma forma, abortou o que seria uma enorme aventura-, ficou essa recordação, que volta e meia trocava com o António, afinal eu ganhara um amigo grande, que nunca mais deixou de contar como tal.

O António terá sido, reportado aos nossos dias, o primeiro influencer de que me lembro. À conta dele, passamos todos a ouvir as bandas que ele ouvia – Legião Urbana, The Stone Roses, Happy Mondays, The Wonder Stuff, pelo menos essas… -, e que levou para a sua banda, os “Voz Urbana”, onde tocava baixo para o João, o Pedro, o Rodrigo e o Paulo Fonseca.

Mais que isso, passamos todos a ensebar as botas de sola de pneu – que pareciam desenhadas para as Levi’s da Base -, a querer usar blusões e casacos largos, e acho que até havia quem tentasse imitar a sua forma de caminhar e de pousar. O António despertou paixões a rodos na nossa juventude. Na pós-adolescência conversamos ainda mais horas, porque a vida nos juntou em locais e horas de família.

Por aqueles bonitos olhos escuros passavam sonhos que ele gostava de partilhar, e a sua forma entusiasmada de contar as coisas quase criava uma melodia para a nossa viagem. Era impossível ficar-lhe indiferente, e volta e meia a paixão pela música surgia, estando sempre lá. O António era um ser de compassos, com um tempo próprio e uma personalidade muito vincada.

E depois houve “Os Sobredotados”, a banda da nossa juventude muito angrense, que salgávamos no verão pela Ponta Negra do Porto Martins, onde a marca do António estava presente, aqui já decalcada pelo seu irmão Agostinho, um dos companheiros essenciais da minha vida. Foram tempos intensos, que nos fizeram como somos hoje. E que qualquer um de nós adoraria repetir, limando uma ou outra aresta.

E pela música me fui desviando do baque no peito destes dias, em que o enorme coração do António o fez partir. Cedo demais, com uma mulher e dois filhos que eram também o seu orgulho, e com tantos momentos por viver. Junto dos seus, nas suas imensas descobertas. Porque por vezes esquecemos que, aos dias de hoje, ele e o Zé Paim seriam grandes empreendedores, quando criaram alojamento em Lisboa para os jovens turistas estrangeiros, numa iniciativa que mudaria a vida de ambos.

E porque igualmente achamos que, com o passar dos anos, nos conseguimos preparar para as perdas e os desgostos. Mas essa é apenas uma verdade burocrática, pois os procedimentos é que são mais fáceis. Ainda é a pele a indicar-nos o rumo dos sentimentos, traduzindo o que nos vai por dentro. E que, nestes dias, é uma pena imensa, apenas amaciada por tiradas brilhantes e que nos fazem sorrir. Tão brilhantes como os bonitos olhos escuros do António. Que se fecharam, mas que lembraremos sempre…



 

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