Girassóis de Infância
São girassóis a perder de vista na Quinta da Pegadinha, em Viana do Castelo, numa paisagem a aproximar um quadro de Van Gogh. A criação de Miguel e Filipe Lemos, pai e filho, não foi estética, mas sim para variar a produção em alguns campos, com o girassol a servir de alimento às vacas, juntamente com a silagem de milho, para aumentar a gordura do leite e permitir um queijo melhor. Num ápice, lembrei-me dos girassóis que plantávamos em pequenos, após a oferta das sementes por um vizinho nosso, o Sr. Nuno. Durante alguns anos, a bonita flor de verão embelezou a beira da horta da Avó Mariinha, sempre com a curiosidade de vermos quem tinha a mais alta. Por vezes, os girassóis subiam tanto, que o vento os fazia vergar. Mas era lindo acompanhar o seu percurso diário, abrindo logo de manhã, para descansarem ao final da tarde, isto durante as semanas em que a sua cor e altivez eram uma realidade. Duas casas abaixo, o Sr. Nuno tinha imensos girassóis, num quintal impecavelmente arranjado. Penso que já escrevi, ao de leve, sobre ele. Era solteiro e usava, de verão e de inverno, uma interminável samarra curta entre o bege e o cinzento. Subia a rua sempre a assobiar. Quando estava bom tempo tinha os braços cruzados atrás das costas, se o clima arrefecia cruzava-os à frente, em jeito de proteção. O Sr. Nuno sabia muitas coisas e tinha uma coleção de Legos. Conversava muito connosco, mas mal falava com os nossos pais. Com o andar da vida percebemos que, à medida que a idade passava, a conversa diminuía. Até que cessou. Já éramos grandes e ele não estava para outros assuntos. A juventude avançou, deixámos de ter girassóis e o Sr. Nuno mudou para o outro extremo da cidade, onde continuou a saber coisas e a tratar de flores. Nunca mais nos cumprimentou. Respeitei sempre a sua opção, nem sei bem porquê. E dele guardo essa boa recordação garrida de amarelo e vida germinada. Realmente, aqueles girassóis foram uma marca de infância. E não devia haver razões para que continuassem a crescer…

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